6 de maio de 2010

A ÉTICA SOCRÁTICO-PLATÔNICA

1 INTRODUÇÃO


A Ética, que é a ciência da moral, buscou orientar a conduta do homem como um ser integrante de um Estado, de um Cosmo e de um grupo social-religioso. A importância da ética filosófica numa pesquisa científica concerne a uma trajetória do pensar e do agir do homem em todos os tempos.
O mundo antigo, isto é, o período pré-socrático continha imagens de homens bons, que agiam de certa forma “corretamente”, mas de onde surgiam as essências de suas ações ou de onde provinham as virtudes praticadas antes do termo, conceito ‘ética’ ser construído, elaborado?
O presente trabalho visa analisar, compreender e explicar a relação da construção da ética socrático-platônica. Neste momento da história, antes de Sócrates e de Platão, não havia estruturas sólidas que compunham um agir rígido para toda sociedade/polis, pois, a Ética sempre procurou orientar e encontrar soluções para os problemas básicos das relações entre os homens. Nesta perspectiva observaremos o contexto histórico do saber ético que foi o primeiro meio donde surgem os questionamentos sobre as condutas da sociedade, ou melhor, da polis.
Sócrates em seu contexto aplica seu método de uma razão argumentativa e esgotativa para trazer a humanidade o conhecimento de si mesmo, tentando elevar no homem o bem que ele possui dentro de si e assim, praticar uma conduta que aja dentro do coletivo.
Sócrates racionaliza a Ética e preconiza uma concepção do bem e do mal e da areté (da virtude). A ética socrático-platônica se iniciou através de uma metodologia dialógica pela qual Sócrates, a personagem principal dos diálogos platônicos.
Platão, reconhecidamente continuador da ética socrática, tem como idéia diretriz de seu pensamento ético, a ordem (kosmos). A ordenação é dada por sua teoria das idéias; o mundo perfeito e imutável das idéias tem efetividade enquanto um modelo (paradigma) que serve como referência, como medida do mundo mutável e imperfeito.
Desta maneira, a construção da ética socrático-platônica traz para todos os tempos, até hoje a visualização de fazer o bem e evitar o mal pra felicidade.
2 A ÉTICA SOCRÁTICO-PLATÔNICA


2.1 PRINCÍPIOS HISTÓRIOCOS DOS MOLDES PARA A ELABORAÇÃO DA ÉTICA


Na história da humanidade, a reflexão filosófica sobre a ética sempre esteve presente em todas as sociedades e culturas. Ainda que não se concentrasse em um corpo organizado de princípios teóricos racionais, os valores morais já prescreviam a identidade de um ethos na história.

A Ética se origina, pois, do saber ético. Ela não é, em suma, senão o próprio saber ético de determinada tradição cultural que, numa conjuntura específica de crise do ethos, recebe uma nova expressão tida como capaz de conferir-lhe uma nova e mais eficaz força de persuasão, no momento em que suas expressões tradicionais, a religião e a sabedoria de vida, perdiam pouco a pouco a credibilidade. (LIMA VAZ, 2008, p.57).

Essa forma do saber ético, como um saber tradicional encontrado nas primeiras civilizações, prescreveu as categorias fundamentais da ética filosófica.
A Ética, que é a ciência da moral, buscou orientar a conduta do homem como um ser integrante de um Estado, de um Cosmo e de um grupo social-religioso. Essa ciência estendeu sua reflexão axiológica ao se direcionar às ciências particulares e técnicas que hoje, no século XXI, ampliou o quadro de discussões para a legitimação das normas morais, a fim de conceder um melhor convívio nos grupos sociais e planetário.

A característica mais original da práxis humana reside, sem dúvida, no fato de que o homem não opera senão a partir do prévio conhecimento do objeto de seu operar. Esse conhecimento não é uma simples representação como pode ocorrer na fantasia animal, mas é um processo de assimilação ativa do real que torna possível uma atitude crítica ou judicativa do cognoscente em face do objeto conhecido. (LIMA VAZ, 2008, p.45).

A importância da ética filosófica numa pesquisa científica concerne a uma trajetória do pensar e do agir do homem em todos os tempos. Ela expressa não somente os anseios e problemas oriundos de cada época, mas expressa a organização política, social e religiosa de uma cultura e nação. O “comportamento moral é próprio do homem como ser histórico, social e prático, isto é, como um ser que transforma conscientemente o mundo que o rodeia” (LIMA VAZ, 2008, p.58). Com isso, o estudo da ética, fundamentado na filosofia, proporciona o conhecimento holístico do ser humano, como ser de ação, racional e social.
A Ética filosófica sempre procurou orientar e encontrar soluções para os problemas básicos das relações entre os homens. Desde a Grécia Antiga à Contemporaneidade, a Ética foi discutida, elaborada e referenciada por muitos filósofos.

[...] o pensamento ético [...] encontrou nos últimos tempos da filosofia pré-socrática poderosas expressões sobretudo nas obras de Heráclito e Demócrito, e alcançou uma avançada instrumentação lógica na crítica dos Sofistas à moral tradicional, cuja influência foi decisiva na gênese do pensamento ético socrático-platônico. (LIMA VAZ, 2008, p.93).

Assim, separar, no desenvolvimento do corpo doutrinal da ética, o que é verdadeiramente de Platão e o que é realmente de Sócrates, convoca-nos a uma busca árdua, pois, podemos enumerar alguns pontos aos ensinamentos éticos socráticos, recordando que Sócrates nada escreveu, devido a isso, a influência platônica é vasta, mas isso não caracteriza que não podemos falar de ética socrática.


2.2 O CONCEITO ÉTICA DE SÓCRATES, PLATÃO E ARISTÓTELES

Com a decadência dos Estados gregos, a reflexão da ética filosófica toma novas direções: de uma moral da pólis para uma moral do universo. Assim, o estoicismo (representado por Sêneca e Epitelo) e o epicurismo (por Epícuro e Tito) tomam a natureza (a física) como referência para a moral.
Para o estoicismo, Deus é a “razão final” do Cosmo. Nada acontece que não esteja determinado por ele. E é para ele que todo indivíduo é destinado. Portanto, “o bem supremo é viver de acordo com a natureza, ou seja, de acordo com a razão”.
Os epicuristas acreditam que o átomo é o grande ordenador de tudo quanto existe. O homem é protagonista de sua vida, pois não há determinações divinas em suas ações. Por isso, o “bem viver” se resume na procura do prazer espiritual.
Sócrates racionaliza a Ética e preconiza uma concepção do bem e do mal e da areté (da virtude). Pois, os socráticos menores deixaram fragmentos, mas são marcas de Sócrates, e nenhum deles propôs um sistema ético maior/melhor do que o socrático-platônico.
Entretanto, Aristóteles, reconhece em Sócrates a consolidação de princípios éticos para o mundo, que antes, possuía conceitos desfigurados neste assunto (moral/ética). “Numa perspectiva de história das idéias éticas devemos, sem dúvida, dar primazia ao Sócrates platônico, pois foi este que Aristóteles reconheceu como iniciador da Ética [...]” (LIMA VAZ, 2008, p.94).
Em Platão, a Ética ganha fôlego na política a partir de uma concepção metafísica e da sua doutrina da alma.
A idéia diretriz do pensamento ético de Platão, na qual se entrecruzam a significação ética e a significação metafísica, é a idéia de ordem (taxis). É ela que permite a unificação, sob a égide [escudo] da teoria das Idéias, da Ética, da Política e da Cosmologia, assegurando a justa medida da arete ao indivíduo e à cidade e guiando o Demiurgo na construção de um kosmos harmonioso. (LIMA VAZ, 2008, p.98).

Assim como Platão, Aristóteles fala do homem político, social, condenado a viver na pólis. Para Aristóteles, o homem deve cultivar a “justa medida”, que é o compêndio das virtudes éticas, pela qual são administrados os impulsos e as paixões. A justa medida “se traduz em um habitus e, portanto, constitui a personalidade moral do indivíduo. Aristóteles teoriza deste modo a máxima dos gregos: ‘Nada em demasia’”. (LIMA VAZ, 2008, p.111).

Para Aristóteles, enquanto a política tem como finalidade o bem coletivo a ética tem por finalidade o bem pessoal. A Ética é uma ciência muito pouco exata, uma vez que se ocupa de assuntos passíveis de modificação. A ética se dá na relação com o outro. Para determinar o bem que caracteriza a atividade própria dos humanos. (LIMA VAZ, 2008, p.115).

A razão deve dirigir e regular todos os atos humanos. E nisso consiste essencialmente a vida virtuosa. E, para ele, o fim último de uma vida virtuosa é ser feliz. Portanto, a felicidade tem que ser o correto desempenho do que lhes é próprio: o uso correto da razão.

3 A ÉTICA SOCRÁTICA


Numa perspectiva histórica das idéias éticas devemos dar precedência ao Sócrates da visão platônica, pois foi este Sócrates que Aristóteles distinguiu como pai da Ética.
O pressuposto básico da Ética de Sócrates – “que basta saber o que é bondade para que se seja bom” (LIMA VAZ, 2008, p.96) - pode parecer ingênuo no mundo de hoje, no qual já está profundamente gravado na nossa mente que só algum grau de repressão é capaz de evitar que o homem seja mau. Na sua época era uma noção perfeitamente coerente com o pensamento – ainda que não com a prática – da sociedade grega.
Antes dele não teria havido uma reflexão organizada sobre a ética e o "homem moral" a não ser o relativismo dos sofistas, neste sentido é inegável que ele é o "Pai da Ética.
A ética socrático-platônica se iniciou através de uma metodologia dialógica pela qual Sócrates, a personagem principal dos diálogos platônicos, investiga os demais personagens sobre os temas: 'homem interior' (psychê), 'verdadeira sabedoria' (sophrosyne) e 'virtude' (arete).

O cuidado do homem interior exige, antes de mais nada, o conhecimento de si mesmo, ou seja, o exercício de uma razão voltada para as 'coisas humanas'. Com objetivo de fazer um reconhecimento de si mesmo para desfazer a falsa imagem de si mesmo e evidenciar a própria ignorância sobre 'como devemos levar a vida', diz Sócrates: 'conheça-te a ti mesmo'. Reconhecer a própria ignorância torna-se uma "douta ignorância", esta é a verdadeira sabedoria, a partir dela pode-se conhecer a verdadeira virtude. (LIMA VAZ, 2008, p.96-97).

Sócrates ao interpelar os cidadãos de Atenas, procurava mostrar-lhes que o verdadeiro valor do homem reside no único bem inatingível pela inconstância da fortuna, a incerteza do futuro, a precariedade do sucesso, as vicissitudes da vida: o bem da alma.
O grande mérito de Sócrates é enfrentar de forma virulenta a hipocrisia da sociedade ateniense cuja resposta aos sofistas era apenas a reafirmação insincera dos velhos valores.
Sócrates defende a identidade entre os interesses individuais e os comunitários como único caminho para a felicidade, o que implica na valorização da bondade, da moderação dos apetites, na busca do conhecimento.

[...] os três temas fundamentais do ensino ético de Sócrates [...] se entrelaçam na doutrina que a historiografia usual consagrou como sendo a marca distintiva da ética socrática: a doutrina da virtude-ciência. Recebida por Platão e criticada por Aristóteles, ela passou a caracterizar o chamado intelectualismo moral de Sócrates, conhecido por suas conseqüências aparentemente paradoxais: (LIMA VAZ, 2008, p.96).

Sócrates ainda acentua alguns pontos que precisam ser trabalhados para a vivencia desta ética, ou seja, uma melhor concepção do que é o homem interior, isto é, a alma.

O tema do homem interior ou da “alma” (psyche) no sentido especificamente socrático, e que assinala uma profunda revolução no curso do pensamento antropológico grego, constitui o motivo dominante da interpelação dirigida por Sócrates aos cidadãos de Atenas, tendo em vista mostrar-lhes que o verdadeiro valor do homem reside no único bem inatingível pela inconstância da fortuna, a incerteza do futuro, a precariedade do sucesso, as vicissitudes da vida:o bem da alma. [...] No tema da psyche socrática, vemos lançando assim o pressuposto antropológico que acompanhará doravante, na variedade das mais diversas concepções do homem, a história da Ética. (LIMA VAZ, 2008, p.95-96).

Ainda, diz:

Ora, o cuidado do homem interior exige, antes de mais nada, o conhecimento de si mesmo, ou seja, o exercício da razão voltada prioritariamente para o próprio homem e para as coisas humanas [...] Sem essa catarse preliminar, destinada a desfazer a falsa imagem que cada um constrói de si mesmo ou a evidenciar a própria ignorância a respeito do que mais importa para a vida que é saber como devemos viver, a busca da definição da virtude não poderia ter lugar. [...] O reconhecimento da ignorância sobre si mesmo torna-se uma “douta ignorância”, a sabedoria verdadeira, e é essa sabedoria que constitui, paradoxalmente, o primeiro momento da ciência socrática e torna possível o aprendizado da verdadeira arete. (LIMA VAZ, 2008, p.95-97).

Assim, Sócrates ao estabelecer a necessidade do uso da razão para prática da virtude, inaugura a história da Ética como ciência do ethos, e essa será a marca indelével da sua origem socrática.

[...] o homem sábio é necessariamente bom, e o homem malvado é necessariamente ignorante, o sábio nunca faz o mal voluntariamente e somente o homem virtuoso é verdadeiramente feliz. [...] Aristóteles criticou justamente a pura e simples identificação da virtude com o saber. (LIMA VAZ, 2008, p.96-97).

Os sofistas responderam a esta questão considerando que a Ética era mera convenção social, Sócrates os refuta, afirmando que a aparente dissociação se dá justamente porque os homens não sabem o que realmente é a bondade. Esta noção perdida em meio à vaidade e a hipocrisia dominante a cegueira do homem, que ao invés de lutar por objetivos reais confunde-se na névoa das convenções sociais. Já se sente aqui o embrião da noção que Platão consolidará e generalizará na sua Alegoria da Caverna.
Assim ao mesmo tempo Sócrates busca uma volta às velhas tradições da Cidadania, mas para isto precisa voltar-se contra estas próprias tradições. Ele aceita os princípios gerais definidos por aquelas tradições, mas apenas como um conceito, uma categoria a ser investigada pela mente humana, rejeitando tanto a forma pela qual estes valores são apreendidos como o conteúdo usualmente atribuído a eles.
Assim ele ao mesmo tempo se contrapõe aos sofistas e aos tradicionalistas, aos primeiros por negarem uma realidade objetiva e universal aos valores éticos, aos segundos por não serem capazes de compreender a essência destes valores.
O problema ético, para Sócrates, é sobretudo, uma questão de definição de termos.

4 A ÉTICA PLATÔNICA


Platão, reconhecidamente continuador da ética socrática, tem como idéia diretriz de seu pensamento ético, a ordem (kosmos). A ordenação é dada por sua teoria das idéias; o mundo perfeito e imutável das idéias tem efetividade enquanto um modelo (paradigma) que serve como referência, como medida do mundo mutável e imperfeito.

Platão [...] não dedicou nenhum de seus diálogos à Ética como tal, [...] mas [...] todo o pensamento platônico, desde os imensos horizontes que abrange, retorna sempre à questão socrática, reproposta solenemente a Trasímaco no diálogo que a tradição colocou como prólogo da República: investigar no logos como devemos viver. (LIMA VAZ, 2008, p.97-98).

A idéia da ordem exprime essencialmente uma proporção (analogia) que une elementos e seres diversos no mais belo dos laços e será, portanto, uma relação analógica que Platão irá estabelecer entre as partes da alma e suas virtudes, entre a alma e a cidade e entre a alma e o mundo.
Esta é a proporção: as virtudes da alma estão para a alma assim como a cidade bem ordenada está para o mundo (enquanto cosmos). Esta analogia para Platão serve como um 'argumento lógico' que prova sua teoria.

A idéia diretriz do pensamento ético de Platão, na qual se entrecruzam a significação ética e a significação metafísica, é a idéia de ordem (taxis). É ela que permite a unificação, sob a égide [escudo] da teoria das Idéias, da Ética, da Política e da Cosmologia, assegurando a justa medida da arete ao indivíduo e à cidade e guiando o Demiurgo na construção de um kosmos harmonioso. (LIMA VAZ, 2008, p.98).

O eixo da ampla reforma sugerida por Platão para construir a sociedade perfeita é a substituição da oligarquia que reinava na Atenas Imperial dos mercadores por uma timocracia, na qual os governantes seriam os melhores dentre os homens de seu tempo em termos de conhecimento e sabedoria.
Nas implicações da utopia platônica é necessário limitar ao mínimo a propriedade, extinguir as unidades familiares de forma a garantir que todos se sintam irmãos de fato porque criados pelo Estado, não por famílias. Ele não se propõe a eliminar os mercadores e agricultores, mas limitar-lhes a ação e, sobretudo, privar-lhes por completo do poder político. Não seria imposta a dura disciplina da posse em comum das mulheres, das dietas e exercícios rigorosos, mas exige-se obediência à lei dura e às ordens dos Guardiões, a elite dirigente da lei e os governantes que seriam os Filósofos, que elaborariam as leis.

O modelo aparece como a concretização de determinado momento do lógico. Assim, o modelo do Guardião é exigido pela lógica da ordem na cidade; e o modelo do Filosofo, pela necessidade de conhecer o fundamento último da ordem e, portanto, da justiça. [...] a vida ética não é um dom da natureza [...] mas fruto de um longo [...] processo educativo. [...] só ao Filósofo pertence conhecer as Idéias e a Idéia suprema do Bem, e [...] a Cidade justa não é senão a “imitação” da Cidade ideal, toda iluminada pelo sol do Bem [...]. (LIMA VAZ, 2008, p.103.105).

Sobre estes Guardiões pesa tal grau de regras e responsabilidades que a escolha deixa de ser um privilégio para tornar-se um sacrifício, exigindo perfeita identidade entre o bem comum e a satisfação pessoal.
Insatisfeito com os rumos da polis, Platão concebe um sistema de governo no qual a educação universal – rígida e valorizada – serve tanto como elemento selecionador de quais elementos entrarão na classe dos Guardiões, como elemento da formação destes guardiões.
No pensamento de Platão o reencontro da ética e da realidade se dá através de uma grande reforma social, política e econômica que torne a cidade mais simples, mais desligada dos valores materiais, mais igualitária. A preservação desta nova cidade só poderia ser feita se o poder fosse centralizado nesta classe dominante dos guardiões e o Filósofo que governaria a polis.
O problema do ethos e da práxis, transposto ao plano do logos filosófico e de suas exigências, mostra-se assim solidário com uma concepção da realidade total é essa solidariedade entre o Bem e o Ser que permite a Platão propor o primeiro grande modelo ético da história.

[...] o problema da conciliação entre liberdade e a necessidade [...] subjaz à concepção da Ética platônica como ciência que deverá integrar a virtude na sua ordem de razões [...] ninguém é virtuoso sem ser livre e ninguém é virtuoso sem ser sábio. Como o virtuoso, ou o homem bom e justo, sendo sábio, pode ser livre? (LIMA VAZ, 2008, p.99).

Platão responde que o conhecimento da ordem implica o conhecimento do Bem, do qual deriva, e o conhecimento das realidades a serem ordenadas.
A ordem irá assegurar assim a unidade das partes na constituição do todo, consistindo, pois, a ordem em cumprir cada uma das partes o que lhe é próprio e transluzir a presença o Bem.

Para a execução desse grande desenho, Platão tem diante de si três tarefas teóricas: a) A primeira de filosofia política [...] uma polis que seja a imagem da polis ideal [...]. b) A segunda antropológica [...] deve mostrar como se reflete na estrutura da alma individual a ordem da cidade justa [...]. c) A terceira [...] em dois planos: [...] ontológico [...] acerca do fundamento último da justiça [...] outro gnosiológico, que deve descrever o caminho do conhecimento que leva à Idéia do Bem. (LIMA VAZ, 2008, p.101-102).

A resposta está na tradição grega, trazendo consigo a experiência da liberdade como confronto com o Destino e como liberdade política na polis, já distinguira as três formas de liberdade em toda tradição ética posterior: a liberdade de arbítrio[1], agir segundo o simples arbítrio de cada um; a liberdade de escolha[2] acompanhada de uma deliberação da razão; e a liberdade de autonomia[3] que consiste na perfeita identificação da liberdade com o Bem.
O saber pragmático dos gregos (herança mitológica), como 'sabedoria', 'virtude', 'lei' e 'justiça', foi re-atualizado por Sócrates como 'ciência da alma'. E para Platão esta ciência torna-se 'metafísica da ordem'; que significa: a ordem da cidade que se dá no cumprimento à lei, na implantação da justiça, no agir honesto e solidário, está referida à perfeição e universalidade das idéias.
Para Platão, uma pessoa que conheça a essência da bondade sabe que só pode ser feliz se agir corretamente.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS


Desde o principio, não tínhamos uma idéia do que fosse ética, só a partir de Sócrates que as idéias são unidas aos termos “morais” não esclarecidos plenamente e são elaborados os moldes para a conduta do homem: fazer o bem e evitar o mal.
Platão por sua vez, sendo aluno de Sócrates, dá um passo a frente das concepções éticas de seu mestre, contudo, não determinando nenhuma linha nitidamente sobre ética, em seu pensamento, nas entrelinhas, dá continuidade ao caminhar ético socrático, apesar de que, Platão eleva a herança de Sócrates a uma altitude especulativa com a qual o mestre provavelmente jamais sonhara, através do Mundo das Idéias.
Assim, podemos considerar a concepção essencial da ética de Sócrates – segundo a qual basta saber o que é a bondade para ser bom – é também a concepção de Platão, mas com duas diferenças básicas.
Sócrates jamais exprimiu de forma objetiva o que ele entendia como bondade, deu apenas definições negativas do conceito demonstrando o caráter superficial deste e outros conceitos em sua época. Platão por sua vez define esta bondade como sendo a Idéia Geral de bondade. Para descobrir o que era a Bondade seria necessário afastar as sombras refletidas pelas convenções para chegar à noção em si da bondade.
A segunda diferença é que ao propor sua utopia, Platão esforça-se não para definir este conceito absoluto de bondade, ao menos para definir como seria uma sociedade na qual ela poderia prosperar.
O problema ético, para Sócrates, é, sobretudo, uma questão de definição de termos. Para Platão, uma pessoa que conheça a essência da bondade sabe que só pode ser feliz se agir corretamente.
Desta maneira, Sócrates, vê na razão argumentativa, isto é, na maiêutica o meio do homem buscar conhecer a si mesmo e buscar conhecer aquilo que é bom e esta em si interiormente e assim agir eticamente. Quanto Platão, busca no Demiurgo as vias para a construção da ética, mas aqui, no mundo físico, os passos são dados pela educação da polis, que gerará a conduta correta entre o coletivo e particular.

6 REFERÊNCIA

LIMA VAZ, Henrique C. de. Escritos de filosofia IV: introdução à ética filosófica 1. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2008, 483 p.
[1] É uma forma corrupta da cidade democrática, onde cada um faz o que deseja.
[2] Esta inicia o verdadeiro caminho da liberdade, posto diante de cada um assumir racionalmente suas virtudes.
[3] O sujeito é plenamente livre do poder tirânico do Destino.

Um comentário:

Cristo Redentor disse...

como resumo das ideias a cerca da compreensão do do que seja a ética e seu processo na história, desde de sua hogem está bom..O artigo trata muito bem da transcrição do que Lima Vas falou em Escritos filosóficos IV.